quarta-feira, 18 de março de 2009


Já ao longe se ouvia o comboio. Incólume ao facto, continuava Joana sentada sentindo-se só, incompreensivelmente só.
Tinha tomado para si mesma a decisão de partir, nada mais lhe restava depois de desfeito o sonho e ter constatado que os últimos tempos tinham passado ao ritmo intenso do seu desejo. Nada lhe restava para além da mala que jazia a seus pés onde estava guardado o seu parco mundo: uma muda de roupa e meia dúzia de objectos de higiene pessoal e um livro. Estranho como os livros são os mais fiéis companheiros de viagem, de partidas e de chegadas. Eles encerram a nossa alma e a ela transmitem uma fantasia que, mais tarde, nos vai atraiçoar, dando-nos de beber o doce veneno do sonho. Sonhamos que a vida se traduz nas palavras sentidas, sonhamos…
Joana esperava o comboio anunciado, de olhos presos no vazio das gentes daquele fim de tarde, escutando os incompreensíveis sons da gare. Era o seu modo de estar sozinha, de conseguir pensar na sua própria ausência de pensamento. Desconhece-se se aquele olhar preso no imaginário infinito dos carris seria a busca do novo destino.
Tinha acordado naquele dia solarengo de primavera, com a luz estampada no rosto. A seu lado, estendido despreocupadamente dormia o companheiro. Gostava de dispensar algum tempo a olhá-lo enquanto dormia. Dispensar esse tempo era, isso mesmo, não pensar, simplesmente olhar. Muito tempo perdemos nós na correria atrás do tempo que indubitavelmente nos foge sem parar para dispensar, somente, dispensar nossos sentidos em algo de belo. Hoje pouco se dispensa, só pensa.
Gostava de olhar aquele corpo onde se entregava em horas de prazer. Não pela física entrega mas por sentir que nele plantava o mais próximo de si. Nele sentia que fazia sentido a espera dos anos em provação. Gostava de o imaginar velho mas feliz numa qualquer cama de um qualquer lar chamado em comum. Gostava de o imaginar seu do mesmo modo que se sentia sua, mesmo nas horas em que, conscientemente sabia que nada possuía para além da mala que jazia agora a seus pés. Vivemos anos a construir matéria que acabamos por deixar espalhada nos recantos da vida. Viajando sempre agarrados a cousas simples, lembrando o quão simples a vida se nos oferece. Tudo para um dia entendermos que nada possuímos que não caiba numa simples mala, numa complexa alma de lama.
O seu homem, como gostava de o chamar pela verbalização do sentir, tinha-lhe lembrado sem palavras a inevitabilidade da paixão quando as vontades se reencontram. A seu lado tinha redescoberto o doce sabor do querer e acalentado a esperança num qualquer futuro. Tinham sabido partilhar as almas e os corpos ao ritmo das palavras e, ela, sentia o final do caminho da espera. Assim o pensava, assim o queria sem saber que os sonhos são pessoais e intransmissíveis. Os sonhos são a voz da alma que nos grita em loucura, o desejo. Quantos sonhos se quedam mortos, irremediavelmente mortos na nossa memória?
Tinham-se encontrado num fim de tarde num café da cidade grande, no meio de todos quantos na cidade se perdem, eles, contrariando, descobriram-se e cresceram. Não eram jovens mas sedentos de sonho e afecto. Nesse mesmo momento, as suas bocas uniram-se selando num beijo o que as palavras não sabiam dizer. Assim foi e assim se cumpriu a profecia íntima de cada um. Sim, todos nós temos uma profecia que se nos escreveu o Universo no momento em que decidimos chegar. Abrimos os olhos e começamos a escrever o guião nas páginas, previamente alinhadas, da nossa vida. Até ao dia em que lemos todo o texto, no derradeiro acto a que nos dirigimos ou desejamos!
Com ele tinha sorrido das flores e das realidades, tinha caminhado ao pôr do sol e, ilusoriamente, pensava ter chegado ao porto da vida onde os cais são feitos de pedra e sorrisos. Com aquele homem tinha experimentado o esquecimento caminhante de outras vidas e a surpresa constante das chegadas.
Agora encontrava-se somente só naquela estação de fim de tarde onde as gentes apanhavam o destino mundano rumo a vidas escritas e, quem sabe partilhadas. Todos sabemos como as estações são momentos de partida sem chegada. Uns partem no comboio, outros partem chegando.
O comboio acabara de entrar com estridente anúncio na gare. Joana nem por isso se moveu. Não tinha a certeza de partir nem a satisfação de chegar, somente estava depois de ele lhe ter dito que nada era certo e que somente nele se revia e encontrava. Tinha-lhe feito sentir que ela, que nada mais ambicionava que as amarras do navio, nada mais representava que um apêndice na sua vida. Importante talvez mas um post scriptum no vagar dos dias, deixando-a perdida sem rumo, restando a ilusão de um dia o ter tido. Tinha pegado nos parcos haveres e tinha, em silêncio partido para a gare onde a máquina a levaria para longe de tudo e para perto de si. Fosse lá onde fosse!
Tinha recusado as chamadas e apelos! Agora estava preste a fazer de si eremita de viagem, com outros tantos. Olhava os carris paralelos que se haveriam de unir naquele mesmo infinito onde desejava chegar. Bilhete na mão e alma posta na incerteza do silêncio.
Queria sentir de novo o desejo alheio. Sentir o seu calor e aquele abraço de noites de chuva. Queria ouvir gritar seu nome do outro lado da gare e um pedido de abraço feito. Queria novamente sentir ser possível falar sendo escutada. Nada mais queria que o seu corpo em profundo silêncio gritando-lhe palavras recusadas anteriormente. Somente queria o confirmar de uma boca que, de si, tomava a vida em goles de satisfação. Queria ser parte dos que com ele partilhavam o sentir diariamente. Invejava-lhe os amigos que, ao fim do dia, entre uma cerveja, lhe escutavam a alma e a quem ele sabia escutar os sentimentos. Queria que aquelas lágrimas caíssem no seu peito e não no granito frio do passeio. Queria somente escutar seu nome!
O último aviso de embarque no comboio rumo ao destino traçado. Ultima oportunidade de, pouca-terra, pouca-terra, ser muito espaço. Nunca lidara bem com desconhecidos silêncios e ausentes desejos. Sempre tinha apregoado a força que agora mesmo lhe faltava para subir a máquina. Não era falta de força, contudo, era esperança…
O comboio partiu em mútuo alheamento. Ela, dele ignorado e para ela, ele recusado. Olhou a fria estação, sob o manto de duas grossas lágrimas de mágoa. Esperaria! Não um novo comboio mas, a figura fantasma de um abraço que a levasse a casa.

2 comentários:

Maria Clara disse...

Adorei o teu conto Pedro!
É trite mas a vida, por vezes, rouba-nos uma parte da nossa alegria; fico na expectativa do próximo...
Maria Clara

Quase nos 50 disse...

Gostei imenso.
Retrata a vida tal como ela é.
Fico a aguardar o próximo!
Um abraço